Arquivo de Notícias Destaque Notícias

Restauradores juntam os cacos da intolerância religiosa

Imagens são devolvidas a uma pequena cidade do Paraná depois de seis meses de intenso trabalho

O trabalho de restauração de imagens sacras tem trazido conforto para comunidades que foram vítimas da intolerância religiosa. Até parece que a comunidade se renova quando uma imagem atacada volta ao seu lugar de origem. O trabalho de restauração é demorado e exige muita paciência, concentração e determinação do artista. É algo que pode demorar mais que a construção de uma imagem nova.

A cidade de Santa Cecília do Pavão, no Norte do Paraná, ficou órfã de suas imagens no primeiro semestre deste ano depois que todas as imagens no interior de sua igreja matriz foram atacadas com violência por uma pessoa fora de controle. As imagens se transformaram em um monte de cacos, quase um pó. E para complicar ainda mais, todo material foi varrido em um mesmo lugar misturando pequenos fragmentos das imagens atacadas. Este ataque aconteceu no dia 30 de dezembro de 2017, um sábado.

Artista plástico separa os cacos das imagens para restauração

Os artistas plásticos Valfrido Soares Barbosa e Sandro Rocha Silva, de Londrina, que trabalham na produção de imagens sacras ficaram comovidos com a situação e se dispuseram a restaurar as imagens. A dupla só não imaginava que a restauração fosse dar tanta mão de obra. Foram quase seis meses de trabalho, horas a fio, para restaurar nove imagens de santos e santas e 21 imagens do presépio. O esforço, porém, não foi em vão.

Na manhã do dia primeiro de julho, um domingo, as imagens foram levadas de volta para a Paróquia Santa Cecília, em Santa Cecília do Pavão, que fica a 60 quilômetros de Londrina. A chegada das imagens, com aspecto de nova e até um pouco diferentes de como estavam antes das agressões, emocionou muitos fiéis, especialmente os mais antigos. Mesmo sem saber o que estava acontecendo, algumas crianças que chegavam para a celebração ficavam encantadas com a novidade e acariciavam as imagens como se fosse alguém da família que havia chegado.

Bispo dom Manoel João Francisco ao incensar as imagens durante celebração

A celebração foi presidida pelo bispo de Cornélio Procópio, dom Manoel João Francisco. No encerramento, ele disse que a intolerância religiosa vem crescendo no Brasil, mas defendeu a necessidade de uma convivência pacífica entre as mais variadas denominações religiosas. “É preciso que sejamos tolerantes e que respeitemos a religião uns dos outros”, afirmou dom Manoel.

A missa terminou com uma homenagem aos restauradores e ao padre Pedro Ramos de Faria, um palotino que acompanhou todo trabalho. Além da dupla londrinense, o trabalho de restauração teve também a participação do artista Adriano Antonholi, de Jataizinho.

Os artistas plásticos Adriano Antonholi, de Jataizinho,  Valfrido Soares Barbosa e Sandro Rocha Silva, de Londrina , foram os responsáveis pela restauração das imagens

O discurso de agradecimento feito por uma representante da comunidade local emocionou a todos.

Outra agressão

No dia 2 de janeiro de 2018, três dias após os ataques em Santa Cecília do Pavão, a mesma pessoa atacou a imagem do padroeiro de Londrina, o Sagrado Coração de Jesus, na catedral metropolitana. A imagem, doada na década de 1940, foi derrubada no chão ficando bastante danificada, em especial a cabeça. O estrago só não foi maior no interior da catedral porque o agressor foi contido por outras pessoas.

Imagem do Sagrado Coração de Jesus foi quebrada no início deste ano na catedral metropolitana de Londrina

No dia 20 de janeiro, representantes de várias denominações religiosas fizeram uma manifestação no centro de Londrina, pedindo paz, o fim da intolerância religiosa e maior respeito entre as religiões. Algumas pessoas, inclusive de religiões não cristãs, lembram o principal mandamento de Jesus, o do amor ao próximo.

O trabalho de restauração foi feito por uma empresa especializada e durou 90 dias. No dia 8 de junho, dia do padroeiro, a imagem foi devolvida à catedral com uma grande festa. A celebração foi presidida pelo arcebispo de Londrina, dom Geremias Steinmetz, e contou com a presença de 4 mil féis.

Imagem do Sagrado Coração de Jesus é devolvida à Catedral de Londrina após ser restaurada

A pessoa que atacou as imagens nas duas cidades chegou a ser detida, mas foi liberada. Ela estaria recebendo tratamento médico especializado.

Nossa Senhora Aparecida

O caso mais conhecido de ataque a um símbolo religioso no Brasil está completando 40 anos. O fato aconteceu no dia 16 de maio de 1978, quando um jovem de 19 anos quebrou uma proteção de vidro e jogou a imagem de Nossa Senhora Aparecida no chão, quebrando-a em mais de 200 pedaços.

Imagem é levada para Aparecida após ser restaurada (reprodução Jornal o Vale)

A imagem foi restaurada pela artista plástica Maria Helena Chartuni, que na época trabalhava no Museu de Arte de São Paulo (MASP), na capital paulista. Ela ficou conhecida em todo o mundo por este trabalho. A restauração durou 33 dias. A imagem foi levada de volta para Aparecida em uma carreata que reuniu milhares de fieis, uma verdadeira demonstração de fé.

No próximo dia 19 de agosto, haverá uma nova carreata, com a mesma imagem, entre a Catedral da Sé em São Paulo e o Santuário Nacional em Aparecida para comemorar os 40 anos da restauração.

2 Comentários

Deixe um comentário

Translate »